As boas ações e o mundo que quero para os meus filhos



Na semana passada fiz uma "boa ação", mas garanto-vos que me encheu mais o coração a mim do que o estômago a quem a fiz. 

Ia para o trabalho como habitualmente de comboio, mas desta vez num horário diferente porque o baby Pedro estava doente e tive de ficar a manhã com ele em casa. Ia com pressa e o meu passo acelerado foi interrompido por um sorriso de uma menina que me disse "olá". Digo menina, mas já devia ter os seu 16, 17, quiçá 18 acabados de fazer. Perguntou-me se a podia ajudar ou se podia fazer um truque de magia, já nem sei bem. Disse-lhe de imediato que não sabia se tinha moedas, que até dispensava o truque para não a fazer perder tempo com uma assistência que se calhar nem um cêntimo tinha para lhe pagar o tempo e o espetáculo. Vasculhei a mala e encontrei 0,10 cêntimos, estendi-lhos com vergonha por ser tão pouco. Agradeceu-me com humildade e insistiu que me queria fazer o truque porque eu tinha mais do que dinheiro, tinha simpatia. Acedi. Fez-me um truque simples, mas bem feito com dois isqueiros. Despediu-se com humildade e sorriu. Seguiu o seu caminho para continuar os seus truques de magia. 

Voltei a vasculhar a mala à procura de algo. Não havia moedas, mas encontrei uma nota. 10€! Sim, também me pareceu excessivo, mas a verdade é que não olhei para a nota como uma esmola, mas sim como uma boa ação. E o mundo bem precisa de gestos positivos porque de maus já está cheio. Levantei-me e fui atrás dela.

Já andava a saltitar na carruagem do comboio a fazer pequenos truques a olhares vazios e pouco interessados. Disse-lhe o que me dissera anteriormente: eu também tinha um truque de magia, mas este era mais simples, só queria que ela usasse aquela nota para comer. Vi-a ficar sem palavras a olhar para a nota. Voltei a sentar-me e ela veio atrás de mim para me agradecer. Disse-me o nome e que vivia na rua, melhor dizendo numa casa abandonada. "Até não é má. Não temos água nem luz mas temos colchões e móveis", confessou-me. Disse-me ainda que queria voltar à escola, queria estudar, mas como não tinha morada era complicado... 

Não sou ingénua. Se calhar saiu na estação seguinte para comprar algo ilegal, mas a verdade é que o seu sorriso, o sentir que alguém se preocupa com ela, encheu-me o coração e a alma. Aquela nota deu-me infinitamente mais a mim do que a ti Liliana. 

"Isto não é uma solução para nada, apenas serve para te matar hoje a fome. A solução está em ti", acabei por lhe dizer no meio de uma conversa rápida... sei que me ouviu. Não sei se vai de facto mudar alguma coisa, mas pelo menos sei que tentei. 

Quando a vi desaparecer pelas portas do comboio ainda olhou novamente para mim e voltou dizer-me: "eu sou a Liliana". 

Quando cheguei a casa confessei ao meu marido que tinha dado €10 a uma sem-abrigo e ele olhou para mim com um sorriso e disse-me que parece que estávamos em sintonia - como sempre. Nesse dia também tinha dado €5 a um arrumador de carros...

Sabemos que não vamos mudar o mundo, mas se mais pessoas realmente se preocupassem, sorrissem ou tivessem gestos positivos, possivelmente o mundo seria um lugar bem melhor para vivermos. E o meu sonho é simples: que os meus filhos herdem um mundo melhor, menos egoísta, mais solidário e mais positivo...

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